quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

NADA SABEMOS


Ficamos, eu a Bibi, fazendo um rápido balanço do ano que hoje termina. Foi um papo rápido: muita tragédia, a crise mundial, cujos reflexos certamente atingirão nosso país, lembrei dos que se foram e aí reli a frase do colunista Marcos Nobre, na Folha de ontem, ao relembrar o ótimo conto do James Joyce, Os Mortos, do livro Dublinenses (que já transcrevi trechos no blog, em 2003) quando ele cita parte do discurso do personagem Gabriel Conroy na festa de Dia dos Reis na casa das tias: "Em encontros como este, sempre nos ocorrem tristes recordações: lembranças do passado, da juventude, de mudanças, de rostos ausentes, cuja falta sentimos. Nossa passagem pela vida é marcada por muitas dessas recordações e, se tivéssemos de pensar nelas todo o tempo, não nos sobrariam forças para desempenhar corajosamente nossas tarefas entre os vivos".
Pois em festas dos finais de ano há sempre lembranças dos que se foram e que sempre sentimos falta: dos nossos pais, amigos, parentes, que só ficaram nas nossas memórias. Mas a gatinha não quis me ouvir. Preferiu dormir de maneira um tanto desajeitada no sofá da sala. Eu queria apenas lembrar do ano que marcou o centenário da morte do Machado de Assis, dos cem anos de Guimarães Rosa, se vivo fosse... Queria lamentar a tragédia causada pela chuvarada em Santa Catarina... Seria um balanço um pouco triste, é verdade. Mas queria também falar de otimismo, de paz.... E também de esperança: esperar que não sejamos afetadas tão duramente pela crise mundial que já desempregou tanta gente por este mundo afora; queria dizer pra Bibi que ainda tenho esperança por um mundo melhor, mas ela pouco me ouviu. Aí lembrei também de um aforismo de Fernando Pessoa quando diz "O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não" (do livro Aforismos e Afins - Companhia das Letras). Daí dei razão a sábia gatinha: melhor saber só o que é preciso saber. Não se antecipe aos fatos. Viva um dia atrás do outro. E aí, quando anunciarem que chegou 2009, pense que é apenas a mudança de um número no calendário. E siga outro conselho do Fernando Pessoa: "Se o nosso espírito pudesse compreender a eternidade ou o infinito, saberíamos tudo. Até podermos entender esse facto, não podemos saber nada".


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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

ANTES DO TELHADO

UM AMIGO

Nei é um amigo de longa data. Que, como eu, chegou cá na Ilha há décadas, sumiu, andou por aí, e retornou. Sou uma das raras leitoras que tem seu primeiro livro de poesias - Outubro - (esgotado), publicado em 1975.

Pois o Nei publicou minha foto Mascote (abaixo) no seu blog, ilustrando sua bela crônica Antes do Telhado.

O que me deixou muito envaidecida.

Nei Duclós


Vi a coruja na ponta do telhado. Vertical, fazendo pose no entardecer. O periscópio do olhar transmite a impressão de corpo retorcido, fora de prumo. Ela apenas está atenta, girando a cabeça enquanto o corpo, imóvel, imita uma espiral. Seu canto é o silêncio, a sabedoria dos ouvintes.

Calada, como fruto em fim da feira, exibe a presença descartável quando acendem as luzes da aldeia. Quase não se vê o vulto que se apaga como as ilustrações de livros obscuros. Mas ela está lá. Seu segredo é que nada anuncia.

Ela se encerra, como um cofre de vime. Guarda-se em penas, desenhos mortos, pincéis de espinhos. A coruja trafega no lusco-fusco das celebrações ocultas. Existia antes do telhado, antes mesmo do terreno baldio cercado, antes do século, da História, da trilha. Já montava guarda quando nem pátria existia. Compartilhava o assombro dos habitantes do trovão, da nudez dos gigantes, das pedras trabalhadas em alfabetos perdidos. Percebia os invasores armados de velas, sabres, varíolas. Sabia o desfecho, já que pousa no telhado há uma eternidade.

Eu a conheço porque se identifica. Não que pronuncie seu nome ou faça algum gesto repetido. É porque habitamos esse chão comum do universo imperfeito. Temos noção exata do pensamento um do outro. Já fervemos em caldeirões, escapamos de armadilhas, sobrevoamos lobos. Agora jogamos no mesmo time.

Imagino tudo, menos o fato de que continua ali, na véspera dos fogos. Talvez não seja o mesmo exemplar que incendiou os antigos.

Mas é feita da mesma natureza, obedece ao impulso que a gerou. É um modelo de criatura que se reproduz na posição ereta das efígies. Lembra um signo, representando alguma nação que perdemos. Ou será o anúncio dos parentes que chegam novamente para ver a festa?

Na quina, avessa ao mundo, a coruja esconde um labirinto. Ao primeiro estrondo, ela voa em curva, como se um gesto imaginário desenhasse a linha de sua desistência.

Mas um duende permanece, mesmo que o sol rebente e a noite seja devorada na fervura das estrelas. A coruja é o verão, ambiente de sonhos. O Ano Novo é apenas o guardião de sua asa, fio de suas garras, brinco de realeza.


RETORNO 1. Imagem desta edição: Mascote, foto de Elaine Borges. Achei que tem tudo a ver com a crônica, apesar de o pássaro que está na beira do barco não ser uma coruja. Mesmo que fosse outro texto, esta seria a ilustração. Foto absolutamente magnífica da grande jornalista que aportou aqui na ilha há décadas. 2. (*) Crônica publicada hoje, dia 30 de dezembro de 2008, no caderno Variedadesdo Diário Catarinense.

domingo, 28 de dezembro de 2008

MASCOTE

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Cenas do cotidiano de quem mora em uma Ilha: uma gaivota, um barco, e a lagoa.

O HOMEM DA PLACA

Todos os anos, lá está ele: talvez seja uma das figuras mais conhecidas da Lagoa da Conceição. É ele que, sentado próximo à ponte, indiretamente dá início à temporada de verão com sua infalível placa anunciando aluguel das casas e apartamentos do local.

PRAIAS POLUIDAS

 
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Todos os anos é a mesma coisa: a Fatma divulga semanalmente o relatório das praias poluidas no litoral de Santa Catarina. O último relatório deste final de ano informava que 64 pontos estão impróprios para banhos ao longo do litoral. Em Florianópolis são 27, entre eles, este da foto tirada hoje à tarde na Lagoa da Conceição.
A pergunta é: Quando serão desenvolvidos projetos para despoluir as praias? Informar aos banhistas que eles estão frequentando praias até com coliformes fecais é obrigação, mas é também obrigação do governo sanar tão graves problemas. Pelos dados da Fatma, 33,69% pontos dos 500 quilometros da nossa faixa litoranea estão poluidos e 42,85% pontos das praias da capital também, ou seja, impróprias para banhos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O MENINO E O NATAL

VERSOS DE NATAL

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!


Mas se fosses mágico,
penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira


FELIZ NATAL

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Um Feliz Natal aos amigos que me acompanham neste blog. Paz, amor, e muita solidariedade neste momento em que famílias inteiras ainda continuam desabrigadas em Santa Catarina.

domingo, 21 de dezembro de 2008

TARDE DE DOMINGO

CENAS DE VERÃO

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Lagoa da Conceição
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FORMIGAS MALUQUINHAS

IDIOTAS DE ESTRADAS

Idiotas de estradas gostam de urinar em morrinhos de formigas. Apreciam de ver as formigas correndo de um canto para o outro, maluquinhas, sem calças, como crianças. Dizem eles que estão infantilizando as formigas. Pode ser.

Manoel de Barros

Do livro O Guardador de Águas - Ed.Civilização Brasileira.