terça-feira, 12 de maio de 2009

VOZES DA PONTE

Foto: elaine borges

PARECIA UM SONHO

Nossa, quando vi parecia que eu estava sonhando!
Depois da primeira emoção vim várias vezes ver
o sol se esconder, ver o mar, a ponte e todo aquele
brilho refletido na água. Há doze anos, quando
venho trabalhar, vejo o mar, a ponte, o pôr-do-sol...
Antes eu só tinha visto o mar pela televisão.
Depois que vi a ponte Hercílio Luz pela primeira vez,
gostava de passar a pé sobre ela várias vezes.
Andava pra lá e pra cá. Essa imagem sempre foi pra
mim muito forte...

Leomar Rohling tinha 18 anos quando viu o mar e a ponte Hercílio Luz pela primeira vez. Em 2002, já com 30 anos, trabalhava como garçom em um restaurante bem próximo à ponte.

UMA OBRA DE DEUS

Eu chorava tanto, tanto que meu pai, segurando minha mão, dizia:calma filha, tu não vai cair...Eu tinha onze anos e muito medo de atravessar a ponte.Lá embaixo eu via o mar, entre as tábuas, e o medo aumentava.Quando completei 21 anos nasceu meu filho, Ademir.Ele tinha dois meses e eu ia no posto de saúdebuscar leite em pó. Segurava bem ele nos meus braços e lá ia eu. Mais tarde nasceu minha filha, Arlete.De novo tinha que atravessar a ponte. Sempre com medo. A última vez que passei a pé foi para ir ao circo. Aí foi pura farra.
Passamos fazendo bagunça, eu e umas amigas. Lembro que lá na ponta ainda paramos e ficamos olhando toda aquela estrutura de ferro.
Mas meu sonho era
atravessar de bicicleta. Nunca consegui. Acho que seria bem gostoso.
A ponte é pra mim uma obra de Deus, uma guia, é a vida sendo renovada.


Martinha Luiza de Farias é manipuladora de pescados e quando deu esse depoimento fazia 24 anos que trabalhava bem ali, pertinho da ponte, no lado continental. E dizia que, antes de voltar para casa, gostava de ficar contemplando a ponte: “Me acostumei com ela, gosto de olhar”.

Entrevistei Leomar e Martinha para o livro Hercílio Luz – Uma Ponte (Tempo Editorial) publicado em dezembro de 2002.

A Ponte Hercílio Luz hoje está fazendo 83 anos. Foi inaugurada em 13 de maio de 1926. Sua estrutura de aço foi trazida dos Estados Unidos. Tem 819 metros de comprimento, as duas torres medem 75 metros e o vão central 43 metros a partir do nível do mar. Fechada em 1982, há alguns anos está em reforma.

domingo, 10 de maio de 2009

AZUL CELESTE, VERMELHO MARAVILHA

Foto:elaine borges
O céu desta tarde de domingo permaneceu assim, azul bem clarinho - daí o "azul celeste"- e lá, na Lagoa da Conceição, vi essa flores com esse vermelho maravilha e delicadas folhas.

MATER DOLOROSA

Mater Dolorosa (...)

Adélia Prado

Uma vez fizemos piqueninque,
ela fez bolas de carne
pra gente comer com pão.
Lembro a volta do rio
e nós na areia.
Era domingo,
ela estava sem fadiga
e me respondia com doçura.
Se for só isso o céu,
está perfeito.

(Oráculos..., p.47)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

SALIM MIGUEL GANHA PRÊMIO DA ABL


Salim Miguel (foto: elaine borges)


Uma boa notícia: Salim Miguel ganhou o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras (ABL). O prêmio é dado aos escritores cuja obra é considerada “expoente da literatura nacional”.
Ao saber da premiação Salim disse ao DC: “Para um escritor e jornalista, depois de uma vida inteira dedicada à leitura e à escrita, receber o maior prêmio da Academia é uma grande satisfação e uma sensação de dever cumprido”.

Confesso que é com muita emoção e alegria que registro esse acontecimento. Salim Miguel é um dos mais importantes escritores de Santa Catarina.

E se um dia alguém me perguntasse: “qual seu personagem inesquecível?” Eu diria: “Salim Miguel”. E não teria dúvidas em citar os momentos memoráveis – poucos, mas substanciosos – que passei conversando com ele tendo, ao lado, a sempre presente companheira Eglê Malheiros.
Há prazer maior do que falar em literatura? Em lembrar os grandes clássicos? Em recordar pedaços da vida e contar saborosas histórias passadas na sua longa e rica vida? Salim Miguel é assim, um grande conversador. Aquele que sabe usar as palavras. Que fala do tempo e memória – seus temas sempre recorrentes – e nos leva a percorrer seu mundo mágico – ou às vezes trágico – sempre com uma pitada de humor, de ironia, de sabedoria.
Salim é o homem da palavra. Tanto faz manuseá-la através da escrita ou oralmente. A palavra é o seu instrumento de trabalho. Por isso, não é de surpreender quando, muitas vezes, ao ouvir histórias, ele logo comente: “isso dá um conto”. Nesses mais de cinqüenta anos de vida literária foi isso exatamente o que ele fez de maneira magistral: usar a palavra, seu dom maior.
Se escrever é o seu grande dom, não é menos importante sua interferência na vida cultural nos lugares por onde passa. Generoso, gosta de dividir, de compartilhar, de incentivar, de participar de projetos onde sempre está embutido o ato de criar nas artes visuais, na literatura, na música, no teatro, no folclore, enfim na soma de tudo isso que chamamos cultura.
Seu papel na Superintendência da Fundação Franklin Cascaes (1993/1996), no governo popular de Sérgio Grando, prefeito de Florianópolis na época, foi exatamente este, de incentivador.
Salim Miguel é assim, um homem de idéias, coerente, ético. Na Fundação Franklin Cascaes entendeu o sentido da palavra popular. Todas as manifestações culturais contaram com seu apoio e incentivo. Procurou parcerias, brigou por mais verbas por entender que cultura sempre deve ser prioridade e não apenas um adendo de um governo democrático e participativo. E não foram poucas às vezes em que lutou bravamente para ampliar o percentual no orçamento do município destinado à FFC.
Escritor, jornalista, animador cultural, nada o separa de tudo que envolve o ato de criar. Com certeza foi como jornalista que burilou sua capacidade já inata de ouvir histórias, pois jornalista nada mais é do que aquele que sabe ouvir para bem contar. E foi ouvindo que Salim escreveu boas reportagens para a revista Manchete. Muitas dessas reportagens depois se transformaram em contos.
Uma vez, em Chapecó, onde foi fazer uma matéria para a revista Manchete sobre os balseiros que carregavam toras de madeira nas corredeiras do rio Uruguai, percebeu que o que via dava um conto. Surgiu então Ponto de Balsa, do livro As desquitadas de Florianópolis.
Entre seus personagens há também o cego João Mendes. Esse não saiu da sua imaginação, mas foi, com certeza, o homem que o ajudou a mergulhar no mundo do imaginário. Dono da única livraria de Biguaçu e cego, Mendes propôs ao menino Salim que lesse em voz alta para ele. A partir daí, foram incontáveis tardes de leituras, as mais variadas. Começava ali a formação literária daquele menino. Salim lembra: “Quando eu queria jogar futebol, passava próximo à livraria bem devagarzinho. Mas cego tem a audição melhor do que a nossa e dizia – ah, agora que não precisas mais de mim, foges”.
Salim dizia que, quando deixasse a Superintendência da Fundação Franklin Cascaes, voltaria ao seu mundo, o mundo da memória, do tempo, do imaginário. Queria buscar os personagens que fazem parte do seu mundo literário. Ou até personagens reais que se eternizaram em seus livros. Como o “seu” Fedoca, prefeito da sua eterna Biguaçu, cuja grande obra foi a construção de um mictório público e foi ele mesmo, o nobre prefeito, o primeiro a inaugurá-la dando uma rápida mijadinha. Ou então o Ti Adão, personagem sempre presente em seus vários contos. Ti Adão contava infindáveis histórias e Salim Miguel – também um bom ouvinte – soube memorizá-las, guardando-as eternizadas em seus diversos livros.
E se escrever é um ato extremamente solitário, não se pode separar Salim Miguel de outra manifestação cultural: o cinema. Quando ele ouve histórias logo percebe que dali pode escrever um belo conto, nós, quando lemos seus textos, logo percebemos que aquela história daria um filme. É assim, por exemplo, com o conto Ponto de Balsa, ou As Queridas Velhinhas – do livro A Morte do Tenente e Outras Mortes. Esse é o dom do grande escritor, fazer com que entremos em seu mundo dando vida aos seus personagens.
O roteiro do filme O Preço da Ilusão - primeiro longa metragem realizado em Santa Catarina – são dele e de Eglê Malheiros. E também a adaptação e roteiro de A Cartomante, de Machado de Assis, também com Eglê Malheiros e Marcos Farias.
Impossível não citar talvez um dos mais importantes momentos da cultura catarinense: o surgimento do Grupo Sul e da Revista Sul (1948/1958). O Grupo Sul desenvolveu intensas atividades culturais, montando e encenando peças teatrais, publicando livros, exposições de arte moderna...

E se, cumprida sua missão na Fundação Franklin Cascaes, Salim Miguel sonhava voltar ao seu mundo da memória, do tempo, do imaginário, o fez em grande estilo: em 1999 ganhou o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte por seu livro Nur na Escuridão (dividido com Antonio Torres com Meu Querido Canibal). Em Nur na Escuridão, Salim Miguel aborda com maestria seu tema recorrente, presente em quase toda sua extensa obra literária: memória mesclada com invenção.
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Salim Miguel receberá o prêmio, no valor de R$ 100 mil, no dia 23 de julho, no Rio de Janeiro, na sede da ABL. Onde também vai lançar Os Melhores Contos de Salim Miguel, pela editora Global.


O LUAR ATRAVÉS DA JANELA

Foto: elaine borges
O LUAR
Alberto Caeiro
O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.
Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O OUTRO LADO DA ILHA

Foto: elaine borges
Final de um dia de outono.

terça-feira, 5 de maio de 2009

MISTURA DE INTERESSES COM DINHEIRO PÚBLICO

Tem chamado a atenção a intensa propaganda na mídia da 9ª Conferência Global do World Travel & Tourism Council a ser realizado em Florianópolis nos dias 15 e 16 de maio. Uma grana sem tamanho está sendo investida nessa promoção e há visível preocupação do governo de Santa Catarina para que tudo saia conforme o previsto. Até alguns "enfeites" a cidade recebeu para impressionar os visitantes. Por exemplo: todo o caminho do aeroporto até o Santinho ( sede da conferência) recebeu iluminação especial, bem como as luminárias da ponte Hercílio Luz também foram trocadas. E ontem, o Jornal do Brasil publicou em sua página 16 (economia) um artigo do jornalista Claudio Mesquita com números que revelam o dinheiro que está sendo aplicado numa promoção de cunho privado e que pouco vai favorecer nosso estado, embora o governo insista em dizer o contrário.

Parte do artigo do JB de ontem está transcrito abaixo. O texto na integra está no blog do Cesar Valente, que aborda o assunto com detalhes.

Um evento de R$ 10 milhões

Cláudio Magnavita
JORNALISTA

Já acenderam as luzes de alerta para o dinheiro público investido na realização da 9ª Conferência Global do WTTC (World Travel & Tourism Council), em Florianópolis, nos dias 15 e 16 de maio. Trata-se de um evento privado, sem a chancela de organismos internacionais, que reunirá quatro centenas de convidados nacionais e internacionais.
Já ultrapassam em R$ 10 milhões os gastos com o evento. Serão R$ 2,5 milhões da Embratur, R$ 5 milhões do governo catarinense e mais de R$ 2 milhões do Fundo de Turismo e Cultura do Estado e da Prefeitura de Florianópolis.
O pior de tudo é o superdimensionamento do evento, que é apresentado como divisor de águas do turismo catarinense. Existe, também, a ideia de que um desses 100 CEO’s internacionais, que terão passagem relâmpago por Florianópolis, resolva investir localmente, justificando os investimentos feitos.Uma tentativa anterior dos organizadores, de vender a realização do WTTC no Brasil, foi afastada por correspondência da então ministra do Turismo, Marta Suplicy, que considerou o investimento de retorno nulo para o país.

domingo, 3 de maio de 2009

NO ACONCHEGO DO LAR E AS LEITURAS DO DIA


Fotos: elaine borges

Num dia como o de hoje, bom mesmo é ler cadernos de cultura dos jornais, a revista Piauí, alguns artigos na Internet... Já a minha amiguinha de quatro patas, se não está ao meu lado, aconchegada entre as coloridas almofadas, às vezes sacia sua sede na torneira do tanque e retorna ao seu cantinho (hoje, ela escolheu ficar entre as almofadas). Vimos, nos noticiários da TV, as alarmantes estatísticas sobre a gripe suína (agora chamada gripe A) e o medo aumenta. Se as autoridades da saúde já dizem que ela inevitavelmente chegará aqui, resta saber se o país está mesmo preparado pra evitar que se alastre de forma catastrófica.
Melhor mudar de assunto.
Entre as leituras, uma me deu imenso prazer de ler: a entrevista que a competente jornalista Lúcia Guimarães fez com o lendário jornalista americano Gay Talese publicada no Caderno 2 do Estadão. Autor de livros como A Mulher do Próximo, sobre a revolução sexual da década de 70, Frank Sinatra Está Resfriado, O Reino e o Poder, (um relato minucioso sobre o New York Times, onde ele trabalhou na década de 60) entre outros, Talese relata que leva anos para escrever um livro. Tem o hábito de carregar fichas nos bolso e ali escreve o que vê, e diz que gosta mesmo é de entrevistar pessoas desconhecidas("eu sou o historiador de pessoas que não têm história registrada em público").
"Por que nós precisamos de jornais?" pergunta Lúcia Guimarães. A resposta de Gay Talese: - " Porque no prédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio. Há mentirosos nos jornais também, mas em menor número. Nos prédios do governo, nas escolas, instituições científicas, estádios de esporte, nas fábricas, a mentira circula num grau mais alto. Os jornais estão mais interessados na verdade, mesmo se cometem erros, às vezes, erros involuntários. E se você ainda quer a verdade, é mais fácil chegar a ela por intermédio de um jornal do que em qualquer outra instituição. Os jornais ainda oferecem a melhor chance de manter a verdade em circulação".
E eu fico cá com minhas dúvidas. Certo, sendo um jornal respeitável, confiamos nele. Mas há a meia verdade, informações dúbias, a versão de quem está no poder tem mais peso do que os que ficam na ante-sala do poder. Há um forte jogo de interesses entre o público (governo e afins) e o privado (empresários, banqueiros...). Não sei não, mas meu otimismo e confiança na imprensa já foram bem mais intensos.

BELO DOMINGO


Fotos: elaine borges
De manhã, um pouco antes das onze, fui à janela e dei minha habitual olhada para o lado direito e lá estava ela, a ponte Hercílio Luz, nosso lindo cartão postal. O céu todo azul, sem nuvens, mar calmo... Ao final da tarde, exatamente às 17h56 minutos, mais beleza: barcos deslizando abaixo da ponte, o sol se pondo... Tudo muito lindo nesse início de maio. E eu tentando eternizar o momento com a minha Canon.

AVAÍ CAMPEÃO!

Que festa, hein? A "Ilha Formosa" está num agito só, ouço foguetório de tudo que é canto. Muita emoção ao final do jogo, com choros e lágrimas o Avaí festeja o título de campeão catarinense de futebol. Por 6x1 derrotou o Chapecó. "Foi-se um peso de onze anos nas costas", como disse um jogador agora na CBN Diário. Cá do meu canto só escuto muita barulheira, gritos, apitaços. É a merecida festa em Florianópolis dos avaianos. Os locutores e analistas esportivos que entendem de futebol elogiam também os jogadores e a pequena torcida do Chapecó, derrotados, pela elegante reação ao final do jogo. Agora a pergunta: será que o Avaí tem time pra enfrentar as feras do Brasileiro da série A?