quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

UM BELÍSSIMO ANO NOVO




Fotos: elaine borges


RECEITA DE ANO NOVO

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

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E que cá na nossa Ilha, a beleza se espalhe ao alcance de nosso olhar. E continue tão bela como as cores destes pequenos homens que, levados pelo vento, brincam por alguns momentos de que também eles possuem asas para voar.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

CENAS DE VERÃO E O CAOS DE SEMPRE


Fotos: elaine borges

Crianças se divertem na Lagoa da Conceição. Enquanto isso, os problemas que se tornaram comuns no litoral catarinense se repetem: a falta d'gua potável, como tem ocorrido em Ponta das Canas, Lagoinha, São Francisco de Sul... Há ainda o trânsito caótico, lento, tumultuado... Imensos engarrafamentos se formam ao longo do dia em qualquer direção que leve às praias de Florianópolis e de todo o litoral catarinense. E onde estão os responsáveis pela segurança dos turistas e moradores? Sumiram. Para todo o litoral (500 km) há 120 homens responsáveis pela segurança publica e, segundo ouvi hoje na CBN/Diário, mais 80 serão contratados, mas, talvez até março, quando acaba a temporada de verão. Portanto, para quem optou veranear por aqui, venha munido de muita paciência.

Diante de tantos problemas, fica a pergunta: Santa Catarina está preparado para receber tantos turistas (mais de um milhão, segundo a previsão)?

QUE CALOR!!!

Foto: elaine borges

A Lola, a chienne tão fina e educada que dá orgulho a qualquer um que ama animais de quatro patas, tem aguentado o calorão dos últimos dias assim: bem próxima aos ventiladores.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O DOMINGO DE CADA UM

foto:elaine borges

Calorão danado, praias lotadas nesta tarde de domingo cá na Ilha. Talvez eu seja uma das raras pessoas que ficou em casa. Olho da janela do apartamento e não vejo ninguem. Mas sei que tem gente curtindo seu jardim, podando as folhagens, regando as flores... Sei também que há alguem nessa cidade tomando uma gostosa cerveja. Dela recebi o recado: "très bonne la bierre. J'ai bu la Voll-Damm espagnole, bierre forte mais très bonne j'ai bien aimé..." Mas a grande maioria curtiu sua cervejinha à beira mar pois, para quem gosta, nada melhor do que praia, sol e cerveja (a Gise é uma delas)... Devo dizer que curti meu domingo preparando uma boa pasta simples (alho, óleo, cebola, tomate e algumas folhas de manjericão) e bebericando meia garrafa do vinho Periquita. O belo prato da foto e a massa ganhei de Natal (Dani e Lenina, obrigada). Fui pra cozinha (raridade) motivada pelo livro que estou lendo: Elas e os Vinhos, do Fernando Cabral (Editora Celebris). Leitura agradável para uma bela tarde de domingo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

FELIZ NATAL

foto: elaine borges

Feliz Natal e um Ótimo 2010!

Penso, nesse momento, na minha turma de quatro patas: gatos, cachorros, cavalos e também nos pássaros e tantos outros animais que não tiveram a sorte que eu tive. Tenho casa, comida, carinho (roupa lavada não precisa porque sou muita asseada, tomo banho com frequência e gosto muito de lamber meus pêlos que ficam bem lustrosos), mas, infelizmente, há muitos amiguinhos mal tratados, abandonados... Espero que o ano de 2010 os trate melhor, pois todos têm direito à vida e ao bem-viver. Aos amigos racionais, que as festas natalinas sejam de confraternização, carinho e amizade. E um Ano Novo com muita Paz, Amor e Saúde. Um brinde - tin-tin!

(Fiquei tão feliz ao ver a árvore toda iluminada que, sem querer, a derrubei. Daí levei uma bronca mas, felizmente, aí está ela, de novo, bem bonitinha. E eu olhando com muito cuidado).

QUERIDO JESUS

Presépio de Natal montada na Praça 15 em 2003 (foto: elaine borges)


Na Itália e em alguns outros países da Europa é o Menino Jesus - Gesú Bambino - quem toma conta do imaginário infantil nas festas natalinas. Há alguns anos o jornal Corriere Della Sera publicou alguns bilhetes que as crianças enviaram para Jesus.Transcrevo algumas das frases publicadas no jornal:


"Querido Menino Jesus, todas as crianças do mundo escrevem para o Papai Noel, mas eu não confio naquele lá. Prefiro você." (Sara)

"Querido Menino Jesus, obrigado pelo irmãozinho. Mas na verdade eu tinha rezado para ganhar um cachorro." (Gianluca).

"Querido Jesus, por que você não está inventando nenhum animal novo nos últimos tempos? A gente vê sempre os mesmos." (Laura)

"Querido Jesus, por favor, ponha um pouco mais de férias entre o Natal e a Páscoa. No meio, agora está sem nada." (Marco)

"Querido Jesus, o padre Mário é seu amigo ou você conhece ele só do trabalho?" (Antonio)

"Querido Menino Jesus, por gentileza, mande-me um cachorrinho. Eu nunca pedi nada antes, pode conferir." (Bruno)

"Querido Jesus, talvez Caim e Abel não se matassem tanto se tivessem um quarto pra cada um. Com o meu irmão funciona." (Lorenzo)
"Querido Jesus, no Carnaval eu vou me fantasiar de diabo, você tem alguma coisa contra?" (Michela)

"Querido Jesus, eu gosto muito do padre-nosso. Você escreveu tudo de uma só vez, ou você teve que ficar apagando? Qualquer coisa que eu escrevo eu tenho que refazer um monte de vezes." (Franco)

"Querido Jesus, o meu nome é Andrea e o meu físico é baixo e magrinho, mas não fraco. O meu irmão diz que a minha cara é horrorosa. Mas eu gosto, porque assim não vou ter aquelas esposas que ficam o tempo todo pegando no pé, fazendo fofoca." (Andrea)

"Querido Jesus, você é invisível mesmo ou é só um truque?" (Giovanni)

"Querido Jesus, na minha opinião, é impossível existir um Deus melhor do que você. Bom, eu só queria que você soubesse, mas estou te dizendo isso não é porque você é Deus." (Valério)

"Querido Jesus, em vez de você fazer as pessoas morrerem e aí criar novas pessoas, por que você não fica com as que já têm?" (Marcello)

"Querido Jesus, se não tivesse acontecido a extinção dos dinossauros não ia ter lugar para nós, você fez muito bem." (Maurizio)
"Querido Menino Jesus, não compre os presentes na loja embaixo no prédio, a mamãe diz que eles são uns ladrões. Muito melhor no super." (Lucia)

"Querido Jesus, nós estudamos na escola que Thomas Edison inventou a luz. Mas no catecismo dizem que foi você. Pra mim ele roubou a sua idéia."(Daria)
“Querido Jesus, a girafa você queria assim mesmo ou foi um acidente?" (Dante).

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

GATOS:NÓS QUE OS AMAMOS TANTO



foto: elaine borges

OS GATOS E SEUS MISTÉRIOS

Na Veja desta semana há uma matéria assinada por Suzana Villaverde sobre os gatos. Há um ponto que discordo: não gosto de ver os bichanos "vestidos" como humanos (óculos, perucas, etc). O que me agradou foi ler as dez coisas que podemos aprender com eles relacionadas pela veterinárias e gatófila Luciana Deschamps.

Vejam:

1) Relaxar - "Gatos adoram uma preguiça e sabem aproveitar cada minuto em que ficam sem fazer nada"; 2) Aproveitar o Momento - "Gatos fazem coisas divertidas, mesmo quando não têm platéia"; 3) Explorar - "Eles querem saber tudo, ver tudo, mexer em tudo, e assim descobrem o que pretendem": 4) Ter Autossuficiência - "Para o gato, ser independente não significa amar menos o dono, mas apenas não ser radicalmente dependente dele"; 5) Mover-se - "Não há andar mais elegante no reino animal que o jeito silencioso e suave dos felinos"; 6) Alongar-se - "Saber se esticar é fundamental para quem quer desbravar o espaço ao seu redor"; 7) Comer com Prazer - " Gatos aproveitam ao máximo o alimento. Cheiram, brincam e só depois comem. É o gosto de experimentar coisas novas"; 8) Ocupar Espaços - " Por que se deitar num cantinho, se você pode ocupar a cama inteira?"; 9) Observar - " Humanos acham que eles não prestam atenção, mas quase tudo o que os gatos aprendem é observando os donos"; 10) Ter Vontade Própria - " O gato não se submete. Deve pensar: Pobre bípede, acha que vou fazer isso só porque ele quer" E não faz".


...E há ainda os cantos inesperados, os refúgios, que minha Bibi está sempre descobrindo. Hoje, sem óculos, não a encontrava. E lá estava ela, num cantinho atrás do toca-discos. Felinos são assim: fascinantes, independentes e, do seu jeito, apegados ao dono sem criar dependência.

sábado, 12 de dezembro de 2009

FIM DA TARDE


Final da tarde de hoje (foto: elaine borges)

DE MANOEL DE BARROS:

No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro.

A ÁRVORE: EXPLICAÇÕES ESFARRAPADAS

Vejam só, um debate que serviria finalmente para esclarecer quem são os patrocinadores da tão polêmica árvore de Natal, o que se viu agora há pouco na TVCom foram explicações esfarrapadas do Secretário de Turismo de Florianópolis, Mário Cavallazzi. O vereador João Amin (PP) tentou focar o debate no principal assunto: o superfaturamento da árvore - R$ 3.7 milhões - inaugurada no dia 5 de novembro na Avenida Beira Mar Norte. No entanto, as explicações não foram convincentes, embora o Secretário insista em dizer que o dinheiro não saiu dos cofres públicos.


O vereador João Amin teve atendida a ação popular e ontem a Justiça determinou que o contrato que a Prefeitura fez com a Palco Sul, que tem sede em Tubarão, fosse suspenso e ainda determinou a anulação dos próximos pagamentos, bem como o sequestro de R$2.120 milhões das contas da empresa responsável pela montagem e desmontagem da árvore.


O debate no programa Conversas Cruzadas seria uma ótima oportunidade para o Secretário de Turismo do Município esclarecer toda essa polêmica em torno da árvore de Natal, mas o que vi foram frágeis tentativas de esclarecimentos e ainda muita grosseria e até ofensas pessoais do Secretário, visivelmente irritado.



Com todo esse imbroglio a programação das festas natalinas foram suspensas. Foi o que disse Mário Cavallazzi, porta voz do prefeito Dario Berger, porque o palco onde seriam realizados os shows também faz parte do contrato com a Palco Sul que foi suspenso por determinação da Justiça. Mas salientou que fariam "esforços" para que as festas de final de ano fossem realizadas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A ÁRVORE DA DISCÓRDIA : MAIS POLÊMICA

Muito difícil entender as explicações do Secretário de Turismo de Florianópolis, Mário Cavallazzi, que há dias vem dando entrevistas aos jornais, emissoras de televisão, de rádio, tentando explicar o tão polêmico contrato com a Palco Sul para montar a árvore de Natal na Avenida Beira Mar ao custo total de R$3.7 milhões. Hoje de manhã, em longa entrevista na rádio CBN/Diário, mais explicações.
Confesso minha ignorância. Não consigo entender como é feito um contrato com uma empresa, a Palco Sul, sem licitação por “notória especialização” e esta subcontratou duas outras por R$ 1.7 milhões. Também não entendo quando o Secretário diz que não pode revelar os nomes das empresas privadas que se responsabilizaram por pagar as despesas com a montagem e desmontagem da árvore “por razões de contrato”. Quem patrocina alguma coisa, quer publicidade, quer aparecer. Com o caso de tão polêmica árvore de Natal os patrocinadores não querem colocar lá sua griffe. Dá pra entender?
Se tudo fosse feito com total transparência o Ministério Público não teria ajuizado uma ação cautelar no Tribunal de Justiça pedindo a suspensão do contrato e dos pagamentos pela instalação da árvore de Natal.
Diz matéria do DC de hoje: Os promotores Ricardo Paladino e Newton Trennepohl, que analisaram documentos enviados pela prefeitura, viram diferença de R$ 2 milhões entre o que a empresa PalcoSul deve receber (R$ 3,7 milhões), segundo o contrato, e o que repassou a duas empresas que subcontratou para fazer o trabalho (R$ 1,7 milhão). Também questionam a dispensa de licitação, adotada pela prefeitura sob o argumento de que a PalcoSul tem notória especialização. Eles não pedem a desmontagem da árvore.– A PalcoSul nunca havia feito uma árvore desse tipo. Ela não tem notória especialização, tanto é que subcontratou outras duas empresas, o que também é irregular – disse Paladino.
Pelo que se vê, mais capítulos virão dessa polêmica novela envolvendo tanta grana. Dinheiro público, com certeza - o nosso, que pagamos impostos.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

À ESPERA DO SONINHO

foto: elaine borges
Madrugada de quarta-feira: enquanto o sono não vem, a Bibi se acomoda como pode no sofá.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

UM BELO ESPETÁCULO

Até eu que não costumo assistir jogos de futebol fiquei fascinada ontem pelo que vi na televisão. A torcida do Flamengo é um espetáculo! Aquele montão de gente (80 mil, dizem) cantando, vibrando, chorando, se emocionando, foi lindo de ver. O jogo, em si, até que não foi lá tão sensacional. O Grêmio jogou bem e com dignidade. E o belo gesto do técnico Andrade deixando seus jogadores fazerem a festa e sair em silêncio para os vestiários(após receber um banho de água) foi também o gesto de um homem simples mas de grande personalidade. Foi como se dissesse:"a festa é de voces, meninos". Mas foi dele também que, do seu jeito, conduziu o Flamengo à vitória final.

Foi, pra mim, um domingo atípico: também parei na frente da televisão para ver um simples jogo de futebol que se transformou em grande espetáculo com tantas emoções e muita alegria. Foi bonito de ver.
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E, ainda, sobre a polêmica árvore de Natal: lá está ela, brilhando à noite. Mas ainda não é a árvore dos sonhos da população. Uma senhora, entrevistada por um repórter da RBS, disse com toda a sinceridade que não gostou. Concordo com ela. Talvez por saber que a história sobre seu custo e, principalmente, quem vai pagar a conta (R$3.7 milhões) não está bem contada.

sábado, 5 de dezembro de 2009

A ÁRVORE ACENDEU, APAGOU, ACENDEU E... APAGOU.

foto: elaine borges
Às 21.9 horas a árvore de Natal na Avenida Beira Mar Norte estava assim, exibindo uma mistura de cores, os famosos LEDs. Fiquei por lá alguns minutos, fiz outras fotos e subi a pé a Avenida. Daí, olhei pra trás e - surpresa - a árvore estava quase totalmente apagada. Não fui perguntar o que tinha acontecido, mas parece que, como se diz quando o foguete não estoura, "deu chabu", pifou. No elevador, meus vizinhos reclamavam: "o que foi aquilo, cadê as luzes, não vimos nada e o pior é que estou perdendo minha novela!"
Não fui perguntar aos organizadores o que estava acontecendo. Apenas relato o que vi até quase dez da noite. Talvez mais tarde as luzes tenham voltado. Pelo custo exorbitante - R$3.7 milhões - a inauguração foi uma desastre.

ÁRVORE DA DISCÓRDIA (1)

foto: elaine borges

A polêmica árvore de Natal, que custou R$ 3.7 milhões, hoje à tarde ainda recebia os últimos retoques para ser inaugurada daqui a pouco. O secretário de Turismo, Mário Cavallazzi, questionado pelo DC , disse que a árvore montada pela ParcoSul, responsável por sua "criação, execução, montagem e desmontagem", será paga 100% pela iniciativa privada, mas, "por questões de contrato eu não posso citar o nome das empresas".

A cerimônia oficial da inauguração será às 20.30 hs. Um pouco antes haverá shows com a banda Na Moral e a cantora Mallu Magalhães.

A ÁRVORE DA DISCÓRDIA

Continua a discussão sobre a árvore de Natal que a prefeitura está montando na Avenida Beiramar e que deve ser inaugurada hoje à noite. Li no blog do Damião mais detalhes sobre o mais novo capítulo dessa lamentável iniciativa da equipe do prefeito Dario Berger. A árvore está sendo montada sem autorização do Patrimônio da União, proprietária da área. A informação foi dada pelo vereador João Amin (PP) em entrevista à radio CBN/Diário. O Ministério Público Estadual já havia informado que iria solicitar mais informações sobre esse suspeito convenio com a empresa responsável pela montagem da árvore sem que houvesse licitação pública.
Mais informações sobre esse vergonhoso imbroglio leia aqui.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

FLORIANÓPOLIS: HORA DE REAGIR

foto: elaine borges

Enquanto escrevia o texto abaixo, recebi este artigo assinado por meu amigo e colega Laudelino Sardá e publicado no DC do dia 27 com o título:

FLORIPA PRECISA REAGIR


A desordem no crescimento urbano é reflexo do descompromisso e da ostentação de uma gestão pública incapaz de enxergar os sinais de decadência de Florianópolis. Bastaria gostar da cidade para o gestor identificar as ameaças de deterioração social e econômica e investir em soluções rápidas. Mas o gestor ignorou o perfil de uma cidade fincada entre montanhas e mar, preferindo obras vistosas, como os viadutos, aliás, aqueles amontoados de concreto. O ano encerra-se com a cidade em estado deplorável. O tenor italiano Andrea Bocelli não cantará mais por R$ 4 milhões. Músicos da Itália terão de vir com ele e, assim, mais R$ 1,4 milhão de despesas. A árvore de Natal não sairá por menos de R$ 3 milhões, enquanto os fogos de artifício vão exigir mais um desembolso de quase R$ 1,5 milhão. Há os gastos de R$ 1,8 milhão com mais um kartódromo, e Schumacher exigiu um cachê de U$ 400 mil para vir dar uma voltinha de kart na pista. Foi para isso que o Sapiens Parque foi projetado?Neste cenário desolador, a cidade perdeu até o que tinha. Seus teatros vivem fechados, casas históricas em demolição, as raízes artísticas em extinção e nada é construído pensando na história e na vida de Florianópolis. Somos, hoje, uma cidade desconstruída, sem identidade. Todos os seus segmentos, quer culturais ou empresariais, estão adormecidos, quem sabe com medo de o governante prenunciar o mal, a exemplo de Floriano Peixoto, que matou dezenas de ilhéus em nome de uma falsa república. É preciso reagir. E, independente de ideologias e de partidos sem ideologias, Florianópolis necessita recuperar a sua dignidade para afastar o risco de o prefeito alienígena e irresponsável destruir completamente este manto natural que ainda espelha uma referência mundial em qualidade de vida.O silêncio da cidade é o verme que a consome.

O que causou estranheza foi o fato do jornal ter publicado tão dura crítica - e com razão. Como disse meu amigo Marcelo (que me repassou o texto acima) "talvez por cochilo do editor".


UM CANTO TODO SEU

foto: elaine borges
Nos últimos tempos tenho percebido que aumenta minha indignação com o que vejo, observo, constato, através da mídia, dos papos, das leituras... Avolumam-se casos de mediocridade, pobreza, manipulação dos fatos, versões obviamente tortuosas para evitar ir direto ao ponto, de conluios entre representantes dos poderes constituídos com os donos da mídia, com adesão de determinados jornalistas... Cenas que estão sendo veiculadas mostrando pacotes de dinheiro colocados nas meias, nas cuecas, nos bolsos dos paletos, em sacolas, dos políticos do governo do Distrito Federal, liderados pelo governador Jose Roberto Arruda (DEM) em consequência da operação deflagrada pela Polícia Federal enojam, revoltam... Pior ainda o argumento do Arruda: os 50 mil eram para comprar 120 mil panetones para distribuir à população da periferia de Brasília!!!
E cá na Ilha, um conhecido comentarista da RBS, Luiz Carlos Prates, fez veemente defesa da ditadura militar, negando que houvesse censura. Para ele, Figueiredo “nos ensinou o caminho da verdadeira luta e da verdadeira e legítima democracia”. O comentário foi feito no dia 30, no aniversário da Novembrada, quando o povo de Florianópolis foi o primeiro a dar seu grito de “basta”. Eu fui testemunha e também vítima (um segurança do Figueiredo me empurrou contra uma parede e fiquei com a perna roxa por vários dias). Não vi o comentário do colunista, recebi a informação via e-mail do Celso Vicenzi e depois li no site da Carta Maior. Mas quem quiser ver vá lá no http://sambaquinarede2.blogspot.com/2009/11/o-trombeta-da-ditadura-insanidade-no.html.
Mais uma vez, suspiro e não consigo reencontrar o otimismo e a esperança que tive anos atrás. Melhor fazer como minha gatinha de quatro patas: enroscar seu corpinho peludo num canto todo seu e lá ficar, bem longe deste insensato mundo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

DENÚNCIA: MANGUES, PRAIAS, RIOS, MARES, SOB AMEAÇA

Santo Antonio de Lisboa - foto: elaine borges

NÃO AO LANÇAMENTO DE “ESGOTO TRATADO”
EM NOSSOS MANGUES, RIOS, PRAIAS, BAIAS E MARES!!!

Nós do Movimento Municipal de Saneamento, Entidades Comunitárias, Maricultores, Pescadores Artesanais e Extrativistas que estamos a mais de um ano exigindo transparência nos debates dos projetos da Prefeitura e CASAN para o Tratamento e Esgotamento Sanitário de Florianópolis, estamos hoje denunciando a grande armação que esta sendo feita com as Obras de Saneamento do PAC.
Denunciamos que as garantias do pleno cumprimento das diretrizes, princípios e prioridades da Lei Nacional de Saneamento Básico e Ambiental, de prevenção e promoção da saúde e proteção do meio ambiente, que deveriam ser aplicadas no Esgotamento Sanitário do nosso município e região, com sustentabilidade econômica, social e ambiental, não estão sendo respeitadas pelo Governo do Sr Dário Berger e pela CASAN.
Isso fica claro, pelo caráter irresponsável e oportunista, que norteou a proposta aprovada no Conselho Municipal de Saneamento, dia 11 de novembro, que autoriza o lançamento de “Esgotos Tratados” da futura Estação de Tratamento do Campeche para o interior do leito do Rio Tavares, e deste para a Baia Sul. Maquiada esta proposta com Termos de Ajuste de Conduta e pelo caráter provisório com tempo determinado, nós e os representantes do Ministério Público Federal, IBAMA, ICMBio e o Ministério da Pesca, consideramos que esta decisão trará danos irreparáveis ao meio ambiente, acabará não tendo caráter provisório e muito menos o Termo de Ajuste de Conduta minimizará os efeitos previstos ou dará garantias de cumprimento de acordos, basta ver a forma como administram e tratam as atuais ETEs em operação na região de Florianópolis, inclusive seus termos de ajustes de conduta que não são cumpridos. Esta decisão, se colocada em prática, decreta a Morte da Pesca Artesanal, do Extrativismo de Berbigão, da Maricultura, do Lazer e Turismo Gastronômico, que dependem da sanidade das águas e do meio ambiente como condição básica para seu mínimo desenvolvimento.
Ainda que sendo “tratados”, os esgotos de dezenas de milhares de moradores do Campeche, do Sul e Leste da Ilha (com vazão de 279 litros por segundo) e futuramente somado com os esgotos da região da Barra do Sambaqui, da Bacia do Itacorubi até a Costeira, como está previsto no projeto da CASAN, e que hoje são lançados ao solo de toda a região por suas fossas, sumidouros e sistemas individuais, passarão a ser lançados no leito do Rio Tavares, carregando portanto enormes concentrados de agentes patogênicos que representam riscos a saúde (como hepatite C, leptospirose) e os chamados nutrientes – nitrogênio e fosfato – que estimulam o crescimento de algas tóxicas, conhecidas como maré vermelha.
A CASAN está propondo desinfectar os efluentes e remover parte dos nutrientes (aprox 20-40%), porem cientificamente esta comprovado que não é suficiente em regiões onde a qualidade das águas tem que atender a segurança sanitária para a produção alimentos, pois nestes “esgotos tratados” permanecem ainda os agentes patogênicos e nutrientes que apresentam risco real à saúde dos consumidores de frutos do mar, alem de riscos a sobrevivência econômica de centenas de famílias que trabalham com pesca artesanal, maricultura, a extração de berbigão, afetando também os setores de bares, restaurantes e turismo. As baías Sul e Norte são responsáveis por 90 % da produção de mariscos e ostras do Brasil, e esta produção representa a quinta maior arrecadação da economia local. Para agravar ainda mais, a Estação de Tratamento está sendo instalada em um terreno que todos sabemos ser área de domínio das águas, seja pelo refluxo das marés altas ou pelos períodos intensos de chuva. É área alagadiça, um verdadeiro charco, ao lado da Reserva Extrativista de Pirajubae que é administrada pelo Instituto Chico Mendes - ICMBio.
Esta aprovação ocorreu sem aprofundar o debate interno e com a sociedade, num acordão da Prefeitura e CASAN com técnicos do Ministério das Cidades e Casa Civil/PAC, na busca de a qualquer custo encaminhar as obras e projetos do PAC Saneamento de Florianópolis. A urgência e rapidez da votação, demonstram que a aprovação da proposta servirá como facilitador de alianças e palanques para as eleições de 2010, e é fruto das articulações, pressões e interesses dos setores especulativos imobiliários e da construção civil donos de vazios urbanos e loteamentos congelados por falta de rede de esgoto.
No Plano Diretor e na escolha do Sistema de Tratamento, nas prioridades das Redes Coletoras, na localização das ETEs e na destinação final dos efluentes sanitários, querem aprofundar ainda mais as exclusões sociais e a concentração de terra e renda na região. Nossas demandas de prioridade na universalização do acesso ao saneamento básico com qualidade e para todos, bem como a defesa da maricultura são obstáculos para seus interesses, por isso para eles vale tudo neste jogo de disputa, em especial o bloqueio de qualquer processo democrático de gestão, participação e controle social na elaboração e aprovação das políticas públicas de infraestrutura e planejamento do desenvolvimento urbano regional, inclusive na realização deste seminário. Denunciamos que a realização deste SEMINÁRIO DE INSANIDADE BÁSICA, com baixíssima divulgação, com as exclusões de temas importantes, de representações populares e de debatedores alternativos aos projetos da CASAN e Prefeitura, não serve como evento técnico e muito menos político para debater as alternativas necessárias, possíveis e existentes. Se a realização do seminário fosse séria, para que seus resultados servissem de fato para pactuar as posições e negociações, na busca de um consenso entre as demandas de saneamento dos setores da sociedade, este deveria no mínimo ter acontecido meses antes do próprio Conselho ter aprovado a proposta da CASAN, Prefeitura e dos técnicos do Ministério das Cidades.
Denunciamos também que na imposição da proposta como um todo, está também sendo empurrado goela a baixo, como única proposta possível, a construção de Grandes ETEs e de Emissários Submarinos a curto, médio e longo prazo para a deposição final dos esgotos tratados das ETEs, como o que está sendo agora debatido no EIA/RIMA do Emissário de Ingleses para a região norte da ilha, com localização nos Ingleses, onde encontra forte resistência dos mais diversos setores econômicos e sociais da região. Por sua vez, as Licenças Ambientais que existem para construir ou operar as ETEs do Campeche e de Ingleses estão em desacordo com os objetivos iniciais de sua aprovação, devido à nova demanda populacional que elas pretendem atender.

Por tudo isso é que nós maricultores, extrativistas, pescadores e dos movimentos sociais, não iremos legitimar a realização deste Seminário do Conselho Municipal de Saneamento, pois serve apenas para referendar de forma cartorial a decisão do conselho na votação de 11 de novembro de 2009.

Aproveitamos a oportunidade para informar que estamos entrando com Ação Civil Pública contra o projeto aprovado. Por último convidamos a população, a imprensa e os demais interessados para irem participar da 2a OFICINA DE ALTERNATIVAS DE TRATAMENTO DE ESGOTO que se realizará neste sábado das 14 às 18h nos ingleses, com o apoio dos professores sanitaristas da UFSC, Pompeo e Luiz Sérgio, e a partir do esforço de entidades comunitárias do Sul e Norte da Ilha de Santa Catarina, no Colégio Santa Terezinha, Rua das Safiras, atrás do Supermercado Angeloni, em Ingleses.
Aproveitamos por último para convidar todos a se mobilizarem e participarem dos debates que estão ocorrendo com o EIA/RIMA do Emissário de Ingleses e da Audiência Pública de ira acontecer no Centro Comunitário da Fazenda do Rio Tavares, ao lado do Terminal TIRIO, às 19hs do dia 03 de dezembro, quinta feira próxima.
Informamos também que o Mov. Municipal de Saneamento, se reúne nesta segunda feira, dia 30 de novembro, as 19h30minh, numa sala superior da Catedral para organizar e avaliar as nossas ações, e dar encaminhamentos para nossos passos futuros, entre eles a Ação Civil Pública contra os projetos em andamento e a Consulta Técnica do Ministério da Pesca com o Movimento, Maricultores e Pescadores..
Atenciosamente,
Movimento Municipal de Saneamento


sábado, 28 de novembro de 2009

TORNATORE E O CINEMA


Vi numa madrugada dessas a entrevista que o diretor italiano Giuseppe Tornatore (“Cinema Paradiso”) deu ao Jô, no seu programa na TV Globo. Tornatore esteve no Brasil para lançar seu mais novo filme, Baaria (segundo a crítica, é seu filme mais pessoal). A certa altura, ele fala de sua grande felicidade: “É quando entro na sala de cinema, a luz apaga e eu penso: “estou feliz”. É exatamente essa a sensação que tenho quando, no escurinho do cinema, sei que viverei ali bons momentos. Tornatore também confessou ser um cineasta sem muitos critérios na escolha dos filmes que vai ver. Sempre há cenas, momentos, que o deixam feliz. “Não sou exigente”, disse. Devo confessar que meus pequenos momentos de felicidade também são esses: ir ao cinema.
E foi por esse meu amor ao cinema que li nesta madrugada o livro de David Gilmour, O Clube do Filme (Editora Intrínseca). Gilmour é critico de cinema, e relata a maneira que encontrou para ajudar o filho em um momento crucial de sua vida. O menino não queria estudar e o pai faz a ele uma proposta: sair da escola desde que assistisse três filmes por semana. O que me atraiu foi exatamente isso: os filmes que o pai mostraria ao filho. E são tantos que fiz também com o autor uma viagem. Na minha memória revi os filmes citados por ele. São 115 no total. Lá estão filmes do Fellini, Huston, Allen, Kurosawa, Coppola, John Ford, Kazan, Malle, Bertolucci...
Há ainda relatos de suas entrevistas com atores, atrizes, cantores. E algumas citações sobre escritores (Virginia Woolf, Tchekhov...).

O filho pergunta:

- E como era George Harrison? (Um cara legal, mas quando eu ouvia aquele sotaque de Liverpool era difícil não pular e gritar: “Você era um dos Beatles. Deve ter pegado milhares de garotas!”); Ziggy Marley (filho de Bob, um pequeno cretino mal-humorado); Henri Keitel (grande ator, mas, com o cérebro de um porco assado); Richard Gere (um típico ator pseudointectual, que não se deu conta de que as pessoas prestam atenção nele por ser uma estrela de cinema, e não um pensador); Jodie Foster (entrevistá-la é como tentar arrombar o Forte Knox); Dennis Hopper (desbocado, engraçado, um grande sujeito); Vanessa Redgrave (calorosa, majestosa, entrevistá-la era como conversar com a rainha); Yoko Ono (defensiva e convencida demais; quando perguntei sobre as motivações e implicações de seu último projeto, ela respondeu: “Você faria essa pergunta a Bruce Springsteen?); Roberto Altman (falante, culto, despreocupado, não me admira que atores trabalhassem para ele por qualquer trocado).


Pra quem gosta de cinema, vai a sugestão: ler O Clube do Filme – O pai. Um filho. Três filmes por semana.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

FLORIANÓPOLIS: A ÁRVORE DA DISCÓRDIA


foto: elaine borges


Enquanto 40 alpinistas vindos de São Paulo se revezam para montar uma árvore de 60 metros de altura na Avenida Beira Mar Norte, cuja responsável pela “criação, execução, montagem e desmontagem”, a Palco Sul Eventos, recebeu R$ 3.700.000,00 da Secretaria Municipal de Turismo, Cultura e Esporte (contrato 1056/SETUR/2009) com dispensa de licitação, Florianópolis enfrenta problemas imensos: a Lagoa da Conceição está parcialmente poluída e as algas se amontoam junto à margem, exalando um cheiro insuportável; assaltos, assassinatos, roubos, acontecem diariamente e não há policiamento nas ruas; áreas que deveriam ser preservadas são ocupadas por fortes grupos da construção civil, sem a devida fiscalização dos órgãos responsáveis pela defesa do meio ambiente; o transporte urbano é deficiente e caro; o setor cultural anda de chapéu de mão solicitando apoio e alguns projetos aparentemente exitosos – como a Biblioteca Barca dos Livros – podem fechar por falta de apoio: ou seja, a cidade vive um dos seus piores momentos no quesito administração.
E há ainda outra iniciativa duvidosa: a vinda de Andrea Boccelli. Dessa vez caberá ao Governo de Santa Catarina pagar R$ 4 milhões, como já foi noticiado pela imprensa local, para o tenor cantar na festa de final de ano na Beira Mar Norte. Não se questiona aqui a importância de tão famoso cantor e ouvi-lo é sempre um prazer.
A pergunta é: não seria mais correto aplicar tão altas somas em outros projetos, como na despoluição das praias, construção de penitenciárias decentes, melhoria do transporte coletivo, das vias públicas, mais incentivos culturais, bibliotecas ambulantes, etc. (a lista é imensa)? Sabe-se que a Biblioteca Pública está entregue às traças, por exemplo. Responsáveis por obras assistências espalhadas pela cidade andam pedindo apoio. Não recolhem as algas das águas da Lagoa da Conceição por falta de dinheiro. Mas, segundo o prefeito Dario Berger, os gastos com as festas natalinas se justificam porque “Florianópolis é um dos principais destinos turísticos do Brasil”.
Escrevendo o texto acima, intercalo com um suspiro, um “ai, meu Deus”, e a inevitável pergunta: até quando Florianópolis, cidade que é um mimo, uma jóia rara, será tão explorada, maltratada, destruída por grupos empresariais, por políticos sem a grandeza necessária que se exige no trato do bem público?
Temos a Justiça Federal que na última terça-feira condenou a Habitasul a pagar R$ 7.5 milhões de indenização “por danos ao meio ambiente causados por obras dos residenciais Arte Dell’Acqua I e II, em Jurerê Internacional, norte da Ilha de Santa Catarina. O município de Florianópolis e a Fundação do Meio Ambiente também foram condenados ao pagamento de indenização de R$ 100 mil.”
No final da sentença do juiz Guy Vanderley Mercuzzo há a observação: “os réus podem recorrer ao Tribunal Regional Federal da 4ª região em Porto Alegre”. Ou seja, a novela vai longe e, de novo, dou mais um suspiro e murmuro: “ai meu Deus”. E faço um pedido: protegei nossa Florianópolis não só dos ventos e das tempestades, mas também daqueles que estão destruindo o nosso pequeno paraíso.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

FLOR ESTRANHA


foto: elaine borges
Pra não dizer que não falei de flores (lembrando Vandré) vai aí uma flor estranha. Não sei o nome, mas é bem bonita. Floriu agora por aqui.

domingo, 15 de novembro de 2009

PORCOS DEPOIS DE PÉROLAS

Duas mulheres se encontram à porta de um edifício. Uma sai e outra entra. A primeira dá passagem à mais velha dizendo:
- Entre. Deixo a idade passar antes da beleza.
A mais velha entra e diz:
- E agora passe você. Porcos depois de uma pérola.

Esse ferino diálogo aconteceu entre a escritora Lillian Hellman (a mais velha) e sua arquiinimiga Claire Booth Luce, também escritora teatral. É parte de um texto da atriz Beatriz Segall para O Estado de S. Paulo (Caderno 2 – Cultura) comentando o relançamento da peça de Lillian Hellman As Pequenas Raposas traduzida por Clarice Lispector (José Olympio), encenado por ela entre 2004/2005. Mulher do também famoso escritor Dashiell Hammett (“O Falcão Maltês”) o casal enfrentou o período da caça aos comunistas do senador Joseph McCarthy, na década de 50 nos Estados Unidos. Intimada a depor no tribunal, se negou a falar. Seu gesto corajoso foi imitado depois por outros norte-americanos acusados de terem ligação com a esquerda. De Lillian Hellman também foi lançado no Brasil, anos atrás, Pentimento (sugiro a leitura, embora esgotado talvez possa ser encontrado em sebos), que resultou no belo filme Julia (1978) de Fred Zinnemann, com Jane Fonda e Vanessa Redgrave.

sábado, 14 de novembro de 2009

CURTINDO UM SOM


foto: elaine borges


(...) E, assim como está escrito em algum lugar que as concierges são velhas, feias e rabugentas, assim também está gravado em letras de fogo, no frontão do mesmo firmamento imbecil, que as ditas concierges têm gatos gordos e hesitantes que cochilam o dia inteiro em cima de almofadas cobertas de capas de crochê.

Assim que li essa frase no livro A elegância do ouriço, de Muriel Barbery (Companhia das Letras) (1), logo pensei na minha pequena amiguinha de quatro patas. Ela certamente ficaria ofendida se a descrevessem assim. Gorda, confesso, ela é (como sua amiga de duas patas). Mas não é defeito, é puro charme. Dormir? Não há felino que não goste de se dedicar a prolongadas sonecas. Mas hoje, por exemplo, minha tarde foi totalmente voltada para ouvir música e quem vejo ali, num cantinho, próximo ao som? A Bibi, tão feliz quanto eu ouvindo meus queridos LPs.
Ouvi desde “The Temptations (“Papa was a rollin’stone”), Marvin Gaye (“I heard it through the grapevine”), Stevie Wonder (“For once in my live”), a sempre ótima Joni Mitchell (“Chalk mark in a rain stone”), o bluesman ingles John Mayall (“Jazz Blues Fusion”) e, finalmente, ouvi o excelente Dave Brubeck (“Time further out – Miró Reflexions”).
Que delícia!
Claro, ouvimos algumas notícias: repercussões sobre o apagão e os argumentos desencontrados do governo Lula (difícil essa turma admitir que comete erros); a possibilidade de Florianópolis implantar o sistema de rodízio de carros para diminuir as filas... Mas, como descobrimos que às vezes é preferível ficar um pouco alheia aos acontecimentos desse mundo que nos cerca, voltei às minhas leituras, às músicas, ao pequeno mundo cá do nosso cantinho.

(1)Muriel Barbery é francesa, foi aluna da École Normale Supérieure e leciona filosofia na Normandia. Seu primeiro livro – Une gourmandise (2000) - foi traduzido em doze línguas. O A elegância do ouriço foi uma das grandes sensações literárias de 2006 na França. Fui “apresentada” a ela pela amiga Tânia Piacentini e estou achando ótimo. O livro, aliás, é da Biblioteca Barca dos Livros.

sábado, 7 de novembro de 2009

SÁBADO NA ILHA


foto: elaine borges - Morro da Cruz

Sábado com previsão de que domingo vai chegar o ventinho que sopra do sul. Ufa! Sinal de que esse calorão insuportável de uma primavera muito estranha está indo embora.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

RACIONAIS E IRRACIONAIS

foto: elaine borges
Ela não fala, mas sabe que alguma coisa não vai bem. Enquanto escrevo, não escondo minha indignação com esses casos de torturas nas prisões de Santa Catarina e fico falando alto. É quando minha amiguinha de quatro patas me olha, cá do seu canto, bem ao lado do monitor. Como explicar a um animal não racional quanta dor nós, animais racionais, causamos aos nossos semelhantes?

EXONERADO DIRETOR DO DEAP

Um já foi exonerado: Hudson Queiroz, diretor do Departamento de Administração Prisional de Santa Catarina. No vídeo sobre a tortura de presos na Penitenciária de São Pedro de Alcântara, ele aparece. Ou seja, viu tudo, mas nega ter testemunhado os espancamentos, os chutes dos presos que, algemados, também tiveram suas cabeças enfiadas nas privadas. Alguns deputados da Assembléia Legislativa de SC se reuniram ontem e tentam criar uma CPI.
Sou cética quanto às CPIs, quase sempre dão em nada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

FLORIANÓPOLIS E SEUS PROBLEMAS

foto: elaine borges
Mais cenas de violência ontem cá na Ilha: populares agredidos por homens da Polícia Militar no centro da cidade. Consequência de uma paralisação relâmpago dos condutores e cobradores dos ônibus do transporte coletivo de Florianópolis. Populares indignados, motoristas tentando fechar a ponte Colombo Salles; ali perto trabalhadores da Zona Azul denunciando a tentativa de privatizar o setor; e ainda a greve dos funcionários da Secretaria da Saúde. Não é mais possível dizer que Florianópolis é uma cidade tranquila. Como todas as capitais, os problemas se avolumam, a população sofre e os governantes se omitem. Talvez tranquilidade só olhando a cidade com uma lente grande angular, como desta foto acima, tirada no início da noite de ontem na Lagoa da Conceição que, alias, também está repleta de problemas: poluição das águas, trânsito caótico, insegurança, ocupação irregular, desmatamentos...

HUMILHADOS E OFENDIDOS

As imagens veiculadas no Fantástico de domingo dão bem a dimensão de como os presos são tratados nas penitenciárias de Santa Catarina: torturados, humilhados, agredidos, chutados... As cenas em que aparecem os presos na penitenciária de segurança máxima de São Pedro de Alcântara são suficientes para exigir ação rápida, rigorosa e transparente do governador Luiz Henrique da Silveira. Abrir sindicância já é praxe quando há denúncias como estas. No entanto, poucos são os punidos. Sabe-se que já foi aberta uma sindicância, mas as cenas são tão fortes, evidentes, que não deixam dúvidas.
Lendo matéria de Luiz Nunes, no UOL Notícias, há detalhes que demonstram que torturar presos é uma prática antiga em Santa Catarina: ”Bateram com borracha do freezer, nos colocaram ajoelhados, beijando os pés deles, e depois arrancavam nossas cuecas”, relatou um detento que hoje cumpre regime semi-aberto. Seu relato refere-se ao que ocorreu em março no presídio de Tijucas, distante cerca de 50 km de Florianópolis.
Há ainda o relato de um pai de um prisioneiro que acusa os agentes penitenciários de terem torturado tão violentamente seu filho que quatro dias após ele morreu: “Quem matou foram os agentes prisionais. Espancaram até a morte”, relatou. O fato ocorreu em janeiro do ano passado, foi denunciado, mas o processo foi arquivado pelo Departamento de Administração Prisional de SC.
Como disse o presidente da Comissão de Assuntos Prisionais da OAB em Santa Catarina, Francisco Ferreira, ao repórter Luiz Nunes, as imagens são claras e, portanto, não se justifica “uma sindicância sigilosa”. "O que deveria haver é um processo administrativo-disciplinar. Se tiver resposta penal e administrativa rápida, servirá como fator inibidor".

domingo, 1 de novembro de 2009

SAUDADES


foto: elaine borges




O TEMPO NÃO PÁRA!


Mário Quintana

Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...


PARA SEMPRE


Carlos Drummond de Andrade

Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

é tempo sem hora,

luz que não apaga

quando sopra o vento

e a chuva desaba,
veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

Morrer acontece

com o que é breve

e passa sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

- mistério profundo -

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

LAGOA DA CONCEIÇÃO

foto: elaine borges
Manhã ensolarada, temperatura amena, prenúncio de que o final de semana será de tempo bom cá na Ilha.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

RODIN NO MASP



foto: elaine borges

Entre árvores, flores, alamedas, estão espalhadas as belíssimas esculturas do Rodin, no Museu onde antes foi sua moradia, em Paris. Uma delas, “As Três Sombras”, está exposta desde ontem no Masp, em São Paulo. A exposição reúne 193 fotos e 22 esculturas. Mas talvez uma das mais conhecidas obras do Auguste Rodin seja o “Pensador” que na exposição trazida ao Brasil “aparece em moldes de madeira e argila” (Folha de S. Paulo – Ilustrada). O que me atrai nas esculturas de Rodin é a maneira como ele tratava o corpo humano. Via beleza no corpo, nos braços, nas mãos, na cabeça, nos gestos. Na “Porta do Inferno” a inspiração veio do Dante Alighieri e na obra fundamental da literatura universal, “A Divina Comédia”. Li que Rodin “tratava o registro fotográfico como extensão de seus estudos” e sempre se fazia acompanhar por fotógrafos, que fotografavam os vários momentos da construção das esculturas, montando e desmontando os pedaços do que, ao final, resultariam em figuras impressionantes, fortes e belas. São muitas dessas fotos que estão expostas no Masp.
A amiga Lenina escreveu em seu blog que percorrer o Museu Rodin foi um dos mais belos passeios que fez em Paris no mês passado. Divido com ela tanta emoção, mas não posso deixar de lembrar outra grande emoção: ver o iluminado pintor holandês Johannes Vermeer e a delicada “A Rendeira” no Louvre.

RODIN: AS TRÊS SOMBRAS

foto: elaine borges
Outra escultura impressionate do Rodin: As Três Sombras.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

VOLTAMOS

foto: elaine borges
Enquanto a Baby se ajeita no pequeno espaço entre o monitor e alguns livros, volto a mexer nessas teclinhas das quais fiquei quase um mês bem distante. Motivo: não sei. Às vezes fico pensando: "vale a pena ficar aqui, teclando, comentando algo que vi, mostrando fotos, momentos que gosto de registrar?" Outras vezes a preguiça toma conta de mim: olho meu cantinho, os livros me chamando e não resisto, afundo a cara na leitura e viajo pra outro mundo, o da literatura...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

E A CHUVA CONTINUA...



fotos: elaine borges

Dias de chuva, vento, enchentes, muita gente desabrigada, prejuízos imensos nas lavouras... Em Florianópolis, o dia novamente amanheceu chuvoso, cinzento, com problemas no trânsito... Resta a mim e a Baby ficar em casa. Ela - como sempre - enroscada nas suas cobertas.

domingo, 27 de setembro de 2009

TARDE DE DOMINGO

foto: elaine borges

Foram raros os momentos sem chuva neste domingo, cá na Ilha. Na Lagoa da Conceição, os barcos permaneceram atracados.

CHUVA DE GELO

Mais uma vez, Santa Catarina enfrenta temporal com vendaval e “chuva de gelo” como descreveram moradores do município de São José, ao lado de Florianópolis. Houve também queda de granizo em Rancho Queimado, Biguaçu e Governador Celso Ramos, causando destelhamento das casas e prejuízo nas lavouras. Na Ilha, de manhã cedinho, em algumas regiões, pedrinhas de gelo caíram, mas sem causar muitos estragos. Segundo a Defesa Civil, 12 municípios das regiões Oeste, Grande Florianópolis e Sul registraram ocorrências de vendaval nas noites de sábado para domingo. Em Antônio Carlos o prefeito já decretou situação de emergência. As chuvas com ventos fortes devem continuar até amanhã, segundo alerta da Defesa Civil.
Nos últimos dois meses choveu acima da média em Santa Catarina. Como o solo está muito encharcado, não está afastada a hipótese de novos deslizamentos de terra, em especial no Litoral e no Vale do Itajaí, regiões que a Defesa Civil está dando uma atenção especial e fazendo alertas à população.

sábado, 26 de setembro de 2009

JEANNE MOREAU E A VIDA


Jeanne Moreau (reprodução)



Na minha vida, todos os filmes, mesmo os que não foram bem-sucedidos, construíram quem eu sou, não só a atriz mas principalmente a mulher. Minha vida toda é dedicada à tentativa de descobrir a natureza humana. Temos uma vida que nos é dada e precisamos fazer alguma coisa com ela. Não só ganhar dinheiro, casar, ter filhos, ficar velhos e morrer sem entender porque estamos neste mundo. Temos que buscar respostas. E eu sempre tive uma enorme curiosidade em relação à vida. Tenho certeza que morrerei sem ter entendido a natureza humana, mas não vou deixar de tentar.


O trecho acima é de uma entrevista que Jeanne Moreau deu a Leonardo Cruz, da Folha. Moreau é a grande homenageada do festival de Cinema do Rio. A dama do cinema francês , hoje com 81 anos, foi dirigida por Orson Welles, Buñuel, Truffaut ("Jules e Jim", lembram?) Malle...

BELO CAOS

foto: elaine borges
Final da tarde de ontem, Beiramar Norte, momento de calma após o caos que se instalou na Ilha. Caos que deve continuar nos próximos dias.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

CHOVE, CHUVA...

foto: elaine borges

Chove, chuva, chove sem parar... Lembrando Jorge Ben Jor, o final da tarde foi assim, com muita chuva cá em Florianópolis. Da janela, vi grossas nuvens cobrindo a Ilha.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

PRIMAVERA CHUVOSA

foto: virgínia figueiredo

Esse belo Ipê - tendo ao fundo a Lagoa da Conceição - durou poucos dias. Suas flores não resistiram às chuvas e aos ventos que sopraram por aqui. E a Primavera, que começou ontem, também promete ser uma estação chuvosa. Estamos sob a influência do El Niño, cuja última "aparição" por aqui foi em 2003. A previsão é de que a estação das flores terá mais cara de outono.


UM DIA, UMA GATA...E OS LIVROS


fotos: elaine borges


Há dias não tenho muita vontade de sentar aqui e escrever. Ficamos cá no apartamento – minha amiguinha de quatro patas e eu – fazendo o que mais gostamos. Ela dormindo a maior parte do dia. Ou atrapalhando minhas tentativas de arrumar as papeladas (documentos, recibos, contas...) na caixa de papelão que comprei com essa finalidade: organizar os inúmeros envelopes, cobranças, faturas, que recebemos semanalmente. Esses tais documentos espalhados pela casa um dia iriam sumir, e aí, fazer o que? Evitar o pior, organizá-los, ou seja, colocar tudo numa caixa e, no final do ano, separar para a declaração do imposto de renda. Bem, essa é uma parte da vidinha nossa. Só que a Baby gostou tanto da caixinha que decidiu transformá-la em cama. Não foi fácil: seu corpinho, um pouco gordinho e muito peludo, é maior do que a caixa. Mas gato (a) que é gato (a) dá um jeito. Bastou se enroscar um pouquinho. Claro que, como a Baby manda na minha vida, esperei com paciência até que ela mudasse de idéia. Resumindo: os papéis ficaram sobre o sofá e ela na caixa-cama.
Então, voltei às leituras. “Morte Em Terra Estrangeira”, outro bom policial da Donna Leon, ainda me prende porque não sei quem matou o estrangeiro (estou na metade do livro). Reli “Tartarin de Tarascon”, do Alphonse Daudet, e redescobri que continua sendo uma leitura prazerosa e muito divertida. Ri muito. E à espera (embora já tenha começado) está o livro do Ruy Castro, “O Leitor Apaixonado – prazeres à luz do abajur”. No prólogo ele escreve: ”A vida não é mais a mesma depois que se penetra no reino das palavras. Na verdade, não me recordo de nenhum dia em que não estivesse cercado por elas”.
Lendo apenas o prólogo, já prevejo bons momentos de leitura.
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Quanto à “ação entre parentes” envolvendo a senadora Ideli Salvatti (PT/SC), seu filho, nora, e o ex-marido, Eurídes Mescoloto, prefiro não comentar.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

SC ENFRENTA TORNADOS, CHUVAS, VENTOS...

foto: elaine borges

Tão lenta e serena e bela majestosa vai passando a vaca. (A Vaca e Hipogrifo – Mario Quintana).

Mas não foi assim que um agricultor viu duas de suas vacas serem levadas pelo tornado que atingiu o município de Guaraciaba, no oeste de Santa Catarina. “Duas vacas, de 200 quilos cada, voaram e foram parar a 50 metros”, relatou o agricultor. Uma mãe tentava segurar a filha de nove anos, mas o vento foi mais forte e a tirou de seus braços. A menina morreu. Foi uma das quatro vítimas dos fortes ventos e tornados que atingiram o Estado. Levantamentos da Defesa Civil indicam que 69 municípios estão em situação de emergência. Há ainda 172 pessoas feridas, 7.368 desalojadas e 1.500 estão em abrigos.


Outros relatos da tragédia que atingiu Santa Catarina também impressionam:


“É difícil de contar. Foi terrível, uma coisa incrível. Foi como uma bomba atômica, tudo subia e descia, voava. Daí quando descia, chupava no redemoinho. Coisa inexplicável, nunca vi”.


"A hora que começou a barulheira, eu abracei meu neto, abracei minha nora e tentei pegar meu irmão, mas não dava. O vento não deixava. Eu rodeava que nem um palhaço. Quando caí, a gente estava tudo fora da casa. Não sei nem como a gente foi parar lá. Tentei voltar para pegar meu irmão, mas o vento empurrava”.


“Eu fiquei voando girando e girando e girando dentro de casa e gritando perguntando pelo meu bebê”.


E continua chovendo em Santa Catarina. A previsão da meteorologia é de que o sábado também será chuvoso e domingo o tempo começará a melhorar. A Defesa Civil observa com atenção o rio Ararangua, na região sul, que sobe lentamente e pode interromper o trecho sul da BR-101.

domingo, 6 de setembro de 2009

TARDE DE INVERNO


Beira-Mar Norte - foto: elaine borges
O domingo foi assim, céu nublado, frio e alguns momentos com chuva. O inverno está indo embora - faltam apenas dez dias para o final da estação. Outono e inverno sempre foram minhas estações preferidas, mas, com temperaturas mais elevadas, espero que o vírus da gripe A vá embora. Até a última sexta-feira 42 pessoas já haviam morrido por gripe A em Santa Catarina e há 337 casos confirmados.

A MANEIRA IDEAL PARA LER

Se um viajante numa noite de Inverno


Ítalo Calvino (Companhia das Letras)


Capítulo I:


Escolha a posição mais cômoda: sentado, estendido, encolhido, deitado. Deitado de costas, de lado, de bruços. Numa poltrona, num sofá, numa cadeira de balanço, numa espreguiçadeira, num pufe. Numa rede, se tiver uma. Na cama, naturalmente, ou até debaixo das cobertas. Pode também ficar de cabeça para baixo, em posição de ioga. Com o livro virado, é claro.
Com certeza, não é fácil encontrar a posição ideal para ler. Outrora, lia-se em pé, diante de um atril. Era hábito permanecer em pé, parado. Descansava-se assim, quando se estava exausto de andar a cavalo. Ninguém jamais pensou em ler a cavalo; agora, contudo, a idéia de ler na sela, com o livro apoiado na crina do animal, talvez preso às orelhas dele por um arreio especial, parece atraente a você. Com os pés nos estribos, deve-se ficar bastante confortável para ler; manter os pés levantados é condição fundamental para desfrutar a leitura.
Pois bem, o que está esperando? Estique as pernas, acomode os pés numa almofada, ou talvez em duas, nos braços do sofá, no encosto da poltrona, na mesinha de chá, na escrivaninha, no piano, num globo terrestre. Antes, porém, tire os sapatos se quiser manter os pés erguidos, do contrário, calce-os novamente. Mas não fique em suspenso, com os sapatos numa das mãos e o livro na outra.
Regule a luz para que ela não lhe canse a vista. Faça isso agora, porque, logo que mergulhar na leitura, não haverá meio de mover-se. Tome cuidado para que a página não fique na sombra – um amontoado de letras pretas sobre um fundo cinzento, uniformes como um bando de ratos -, mas esteja atento para não receber uma luz demasiado forte que, ao refletir-se no branco impiedoso do papel, corroa a negrura dos caracteres como a luz do meio-dia mediterrâneo. Procure providenciar tudo aquilo que possa vir a interromper a leitura. Se você fuma, deixe os cigarros e o cinzeiro ao alcance da mão. O que falta ainda? Precisa fazer xixi? Bom, isso é com você.

SOBRE A DIFÍCIL ESCOLHA DE UM LIVRO

Se Um Viajante Numa Noite de Inverno

Italo Calvino - trechos do Capítulo I:

(...) pois então você leu num jornal que foi lançado Se um viajante numa noite de inverno, o novo livro de Italo Calvino (Companhia das Letras), que não publicava nada há vários anos. Passou por uma livraria e comprou o volume. Fez bem.
Já logo na vitrine da livraria, identificou a capa com o título que procurava. Seguindo essa pista visual, você abriu caminho na loja, através das densas barreiras dos Livros que Você Não Leu que, das mesas e prateleiras, olham-no de esguelha tentando intimidá-lo. Mas você sabe que não deve deixar-se impressionar, pois estão distribuídos por hectares e mais hectares dos livros Cuja Leitura é Dispensável, os Livros Para outros Usos Que Não a Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos. Assim, após você ter superado a primeira linha de defesas, eis que cai sobre sua pessoa a infantaria dos Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade, Mas, Infelizmente Os Dias Que Lhe Restam Para Viver Não São Tantos Assim. Com movimentos rápidos, você os deixa para trás e atravessa as falanges dos Livros Que Tem a Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros, dos Livros Demasiados Caros Que podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Reeditados Em Coleções De Bolso, dos Livros Que Poderia Pedir Emprestados A Alguém, dos Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido. Esquivando-se de tais assaltos, você alcança as torres do fortim, onde ainda resistem
Os Livros Que Há Tempos Você Pretende Ler,
Os Livros Que Procurou Durante Vários Anos Sem Ter Encontrado,
Os Livros Que Dizem Respeito A Algo Que o Ocupa Neste Momento,
Os Livros Que Deseja Adquirir Para Ter Por Perto Em Qualquer Circunstância,
Os Livros Que Gostaria De Separar Para ler Neste Verão,
Os Livros Que Lhe Faltam Para Colocar Ao Lado de Outros Em Sua Estante,
Os Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada.
Bom, foi enfim possível deduzir o número ilimitado de forças em campo a um conjunto certamente muito grande, conquanto incalculável num número finito, embora esse alívio relativo seja solapado pelas emboscadas dos Livros Que Você Leu Há Muito Tempo E Que Já Seria Hora de Reler e dos Livros Que Sempre Fingiu Ter Lido E Que Já Seria Hora De Decidir-se A Lê-los Realmente.
(...) Tudo isso para dizer que, após ter percorrido rapidamente com o olhar os títulos dos volumes expostos na livraria, você se dirigiu a uma pilha de exemplares recém-impressos de Se um viajante numa noite de inverno, pegou um e o levou ao caixa para ver reconhecido o seu direito de possuí-lo.
Você ainda lançou sobre os livros em redor um olhar desgarrado (ou melhor: os livros é que o olharam com um olhar perdido como o dos cães nos cercados do canil municipal quando vêem um ex-companheiro ser levado na coleira pelo dono que veio resgatá-lo) e, enfim, saiu.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

OLHAR DISTANTE

foto: elaine borges

Pensando em que? Pergunto sempre a minha gatinha quando está com esse olhar tão longe! Seu mundo é mesmo intransponível e cheio de mistérios. Sentada ali, ao meu lado, enquanto escrevo e escuto minha mais nova descoberta (o cd Beirut, uma mistura de sons ciganos, dos Balcãs, com sanfonas, sax, vozes... uma maravilha) fico um bom tempo a observá-la. Ela me olha, fecha os olhos, dorme, me olha novamente.... E assim permanece. Sei, racionalmente, que animal não pensa, não tem memória, muito menos sabe sobre a passagem do tempo. Seu momento é hoje, agora. Eles não sabem que vão morrer. Não têm a mínima idéia da finitude da vida. Não sabem que há o tempo de viver e o tempo de morrer. Às vezes acho que o não saber, o não raciocinar, o não pensar, faz com que nossos amiguinhos de quatro patas reforçam ainda mais o elo de amizade e companheirismo conosco, os humanos.
O silêncio da minha Bibi, seu olhar, me intrigam. Mas não dispenso essa convivência, mesmo sabendo que nunca entrarei no seu misterioso mundo.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

PERIGO NAS ALTURAS


fotos: elaine borges
Hoje de manhã, vi essa senhora desafiando o perigo limpando a janela do décimo andar sem nenhuma proteção.

NO TEMPO DA RATOEIRA

foto: elaine borges

No último domingo, senhoras do Canto da Lagoa foram cantar suas Ratoeiras na Biblioteca Barca dos Livros, na Lagoa da Conceição. As senhoras, com idade média de 60/70 anos - cujos nomes, infelizmente, não foram anunciados - cantaram versinhos da Ratoeira, uma espécie de brincadeira praticada desde os tempos da raspação de mandioca. As senhoras fazem parte do Grupo Amizade do Canto da Lagoa, que conta com o apoio fundamental da Telma Coelho.
Abaixo, o depoimento de Laurindo Gonçalves Pinheiro (1905/1993), antigo escrivão da Lagoa da Conceição, do livro Vozes da Lagoa, de Elaine Borges, Bebel Orofino e Suzete Sandin - edição Fundação Franklin Cascaes:

NAMORO NA RATOEIRA

Os namoros também começavam nos engenhos de farinha.
Na época da safra da mandioca, de abril a agosto, era o
costume colher a mandioca, levar para o engenho e, à noite,
toda a vizinhança ia ajudar a raspar a mandioca.
No fim da farinhada, nós resolvíamos fazer uma festinha,
Dançávamos, bebíamos cachaça queimada,
que era a bebida da época, comíamos rosca de polvilho, broa,
tomávamos um café forte e aí íamos dançar a ratoeira.
A ratoeira era uma dança.
Todos se davam as mãos, e um entrava na roda.
Aquele que estava dentro da roda cantava, e depois
botava o outro... e assim ia.
Nas cantigas, começavam os namoros.
Um cantava um verso romântico, outro mais agressivo e assim
continuava.
Algumas vezes, eu saia da ratoeira e botava a
namorada dentro da roda.
Tinha um verso que eu cantava que dizia assim:


Em cima daquele morro
tem um coqueiro furado
está cheio de lágrimas dentro
que por ti tenho chorado.

E aí eu botava a namorada na roda e vinha a resposta,
mas não me lembro.
Uns tocavam gaita, outro viola, pandeiro e faziam a festa.
Um dos versos dizia assim:

Não penses que eu
por ti morro
nem por ti ando morrendo
isto é o pouco caso
que eu por ti ando fazendo.

domingo, 30 de agosto de 2009

ORA (DIREIS) OUVIR ESTRELAS!

The Starry Night (1889) - Vincent Van Gogh


A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
E tu pisavas nos astros distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão.

Os versos acima são da belíssima música de Orestes Barbosa (1893/1966), a conhecida "Chão de Estrelas".

E volto ao assunto "em defesa do céu noturno e pelo direito à luz das estrelas", tema discutido pelos astrônomos reunidos em Assembléia Geral no Rio (Estadão - 14 de agosto). Os astrônomos afirmam que "um céu noturno não poluído, que permita a contemplação do firmamento, deve ser considerado um direito sociocultural e ambiental fundamental". E para defender esse direito criaram a Maratona Via Láctea. Nas próximas semanas vão promover encontros para o povo "medir e conhecer o impacto do excesso de luz na cidade em que vive". Os astrônomos constataram que há iluminação excessiva e sugerem "investimento no astroturismo e a racionalização da iluminação". Eles constataram que a poluição luminosa é fácil de combater e sugerem que sejam colocadas tiras de alumínio ao redor das lâmpadas dos postes para direcionar a luz para baixo. E citam como exemplo o que foi feito em um condomínio, em Friburgo, diminuindo em 50% o custo da iluminação. Também observam que no Chile já foi implantado o turismo astronômico, e com lucro.
A idéia é incentivar as pessoas a busca pelo céu estrelado.

Céu que Van Gogh pintou, em 1889. Lá está um céu turbulento, que ele chamou de "The Starry Night" -Noite Estrelada" - e foi pintado do asilo, em Saint-Remy (13 meses antes dele se suicidar, com 37 anos). Van Gogh pintou uma noite cujas estrelas ele não via.

Essa famosa tela serviu de inspiração para Josh Groban escrever a belíssima "Starry, Starry Night", cantada maravilhosamente bem por Don McLean ( Starry, starry night/paint your palette blue and grey/look out on a summer's day/with eyes that know the darkness in my soul/shadows on the hills/sketch the trees and daffodils/catch the breeze and the winter chills/in colours on the snowy linen land).

Alem de Van Gogh, há ainda os famosos versos de Olavo Bilac ( 1865/1918):

"Ora ( direis) ouvir estrelas?/ certo, perdeste o senso/ E eu vos direi, no entanto/ Que, para ouví-las/muitas vezes desperto/ E abro as janelas, palido de espanto".

Ou, Das Utopias, Mario Quintana: "Se as coisas são inatingíveis...ora!/Não é motivo para não querê-las.../Que tristes os caminhos, se não fora/ A presença distante das estrelas!"

Ah, as estrelas, assunto infindável!
"Vi uma estrela tão alta/Vi uma estrela tão fria", escreveu Bandeira...

Melhor parar por aqui. E ir à janela...olhar as estrelas.

sábado, 29 de agosto de 2009

REVELAÇÕES

foto: elaine borges
"A natureza não faz milagres; faz revelações." ( Carlos Drummond de Andrade )

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A PONTE APARECEU

foto: elaine borges
Quase meio-dia, e cá está ela, a Hercílio Luz, ainda com um pouquinho de neblina.